No fim do dia, o mal do mundo é a solidão. Passem dias, meses, anos tentando entender a raiz dos seus problemas, pra no fim das contas, se dar conta de que o mal da raça humana é a solidão. Que me corrijam caso eu esteja enganada, mas tanta gente faz tanta besteira e se pergunta o tempo todo “por quê?”, e se for levar a pergunta a fundo, se for investigar de verdade, vai acabar, uma hora ou outra, se dando conta que a resposta é “solidão”.
A verdade é que cada um sabe seus defeitos, e como é o natural, os defeitos que a gente mais odeia são os defeitos que a gente mais presta atenção. Isso faz com que a gente preste a maior atenção do mundo nos defeitos insuportáveis que a gente tem, e perceba que por nos conhecermos tão a fundo, por sabermos todos os nossos podres, são poucas as vezes em que estamos contentes estando apenas em nossa própria companhia.
Daí é que surgem as meninas que colocam um decote que mostra até a alma. Garotos que agem feito babacas completos, mesmo sem querer. Meninas ciumentas. Caras ciumentos. Gente insegura. Gente chiclete. Menina que não se dá ao valor que merece. Menino que tem medo de chegar em menina. Gente que se mata em academias dia após dia, sendo escravo do próprio corpo. Gente que se mata. Gente que não se aceita. Gente.
Talvez aquela garota que você julga por usar um decote e uma mini saia que, combinados, são capazes de mostrar a alma dela – e no pior sentido da expressão –, esteja apenas tentando encontrar uma forma de chamar atenção de alguém, pra ter alguém, pra não ficar sozinha. Aquele cara que é uma graça, mas age feito um babaca, faz piadas sem graça achando que está mandando muito bem, talvez ache mesmo que está mandando muito bem, e que precisa continuar assim, pra não ficar sozinho. Aquele casal que tem ciúme doentio um do outro, porque tem medo do outro achar outra mais interessante e partir, e alguém vai acabar ficando sozinho. Aquela menininha que liga de cinco em cinco minutos, estressa quando não recebe resposta, faz tudo muito dobrado, exagerado, pra quê? Pra ser ouvida, porque acha que vai prender alguém e, assim, não vai acabar sozinha. Aquele rapazinho que tem um amor platônico por aquela outra mocinha, mas não fala com ela porque tem medo de levar um fora e acabar, de alguma forma, ficando sozinho. Aquele povo todo nas academias, queimando gorduras que não existem, tomando suplementos absurdos pra ter um corpo perfeito que foi estipulado pelos padrões da moda por gente que parece que nunca tá sozinha.Percebem como é um ciclo? São atitudes inicialmente classificadas como futilidades, que se enraízam na mesma razão: medo de estar sozinho. E é uma pena que essas atitudes todas, no fim das contas, acabem “saindo pela culatra”. As vulgares incompreendidas acabam sendo usadas porque são incompreendidas. O babaca – que talvez nem seja um babaca –, no final, afasta as pessoas, mesmo sem querer. O casal ciumento se machuca tanto que acaba não se suportando no final. A chatinha assusta e afasta quem ela mais quer por perto. O tímido acaba não falando nada e nunca vai ter a certeza do que poderia ter sido ou não. Tanta gente que se mata metaforicamente, que se mata literalmente: sai pela culatra.
O medo de ficar sozinho é global. Eu tenho, você tem, todos ao seu redor têm. Ninguém tem coragem de ficar pra sempre apenas na própria companhia, sem alguém pra dividir a responsabilidade de aceitar seus piores defeitos. Mas é tão pouca gente disposta a assumir, tão pouca gente disposta a aceitar, que esse acaba sendo um medo universal e absoluto. E o pior de tudo: incorrigível.
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