Que a verdade seja dita: eu não esqueço das coisas. Não esqueço o que fiz de bom pra alguém, nem o que esse alguém me fez de bom. Mas, mais que qualquer coisa, eu não esqueço o que me fez de mal.Não pensem vocês que eu sou do tipo de pessoa que não sabe perdoar, que não sabe colocar ponto final em mal-entendido – ou muito bem entendido –, que não sabe virar a página. Eu sei, sério. Mas eu viro a página e deixo sempre um marcador, porque é sempre bom marcar esse tipo de coisa. É simples assim: eu marco.
E quanto maior for a cagada – minha ou da outra pessoa – mais chamativo é o marca página, que é pra não esquecer mesmo, pra reler a história de vez em quando. Se for um capítulo que eu escrevi, é bom reler pra não fazer de novo, pra não repetir histórias. Se for o capítulo que alguém escreveu por mim, é bom reler até decorar, pra não correr o risco de deixar outra pessoa escrever um capítulo parecido.
Mas eu não esqueço mesmo. E como se não bastasse, eu guardo mágoa. Eu guardo rancor. Não que isso seja motivo de orgulho, mas é uma coisa minha. Eu perdôo, porque não sou ninguém pra julgar ninguém, mas minha confiança é coisa rara de recuperar. E eu não finjo. Eu não sei fingir. Se eu tô brava, eu tô brava de verdade. Se eu tô magoada, chateada, machucada, eu vou lembrar isso assim que vir a pessoa que causou o dano.
Eu não minto. Eu guardo rancor. Eu guardo mágoa. Eu perdôo, mas não esqueço – se é que isso é possível. Eu tenho uma memória do tamanho de um elefante, então não se surpreenda se eu repetir, palavra a palavra, alguma coisa que alguém me falou. É o meu jeito. Se souber lidar, tá bacana. Se pisar na bola, tá marcado.
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