Dá uma preguiça enorme desse mundo onde a gente vive. Dá uma preguiça enorme de viver no meio dele. Dá preguiça de olhar pro lado e ver tanta gente que mente, que engana – que engana os outros e a si mesmo –, tanta gente querendo ser o que não é! Dá preguiça dessa gente toda rindo numa festa que está um porre porque tá todo mundo de porre e se você não fica de porre também, você é careta ou, no pior dos casos, você se dá conta de que a festa está uma bosta e que não tem como ir embora porque sua carona está gostando da merda toda.Dá preguiça, porque a gente morre de medo de mostrar nosso lado bom, já que o mundo tá acostumado demais com gente ruim, e quando você mostra a sua bondade, as pessoas esperam isso de você e, não contentes, se aproveitam. Aí você acaba até – olha que absurdo! – se perguntando se você é a única pessoa certa mesmo, ou se o mundo é quem está certo e você está sozinha remando contra a maré. Aí dá mais preguiça ainda.
Dá a maior preguiça de amar alguém, porque ninguém mais sabe criar raízes, ninguém mais sabe amar só por amar. Tem sempre que ter alguma coisa por trás. Ninguém mais sabe amar cem por cento, é tudo sempre muito vago, muito pela metade. Quando a gente se arrisca a amar alguém, tem que fingir ser pela metade também, porque amor, nos dias de hoje, assusta, afasta. Aí, quando a gente se arrisca a amar, dá mais preguiça ainda de pensar no depois, porque todo mundo sempre vai embora. É difícil demais achar amigo que fica, amor que fica, gente que fica. Todo mundo tem preguiça de ficar e criar laços, então vai embora.
No fim das contas, dá o maior medo de sentir alguma coisa. Seja amor, seja paixão, bondade. A gente não pode, nos dias de hoje, sentir nada. E se sentir, não pode demonstrar, porque depois é preciso voltar recolhendo os escombros, e isso dá preguiça demais. No fim das contas, a única preguiça que não me dá preguiça é meu gato preguiçoso.
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